Archives for July 2011

Rouba-me, senhor, as palavras… (take 2)

Rouba-me, Senhor, as palavras
especialmente quando mais as quero usar,
Rouba-me todas, todas as palavras,
para que delas possa o meu coração esvaziar.

Rouba-me, Senhor, as palavras
e ensina-me de novo a rezar
enchendo de silêncio a minha boca
para que possa aprender a escutar.

Rouba-me, Senhor, as palavras
dá-me o dom da escuta, o olhar
dos que não falam, mas rezam
em tudo, Senhor, o teu Criar.

Ensina-me, Senhor, de novo, a rezar...

Uma forma diferente de rezar…

oracao de caboclo[1]

Chegou-me por e-mail, através da minha animadora, e senti o dever de partilhar... é realmente uma forma diferente de rezar.

Ói Deus,
Nóis tá sempre pedindo as coisas pro Sinhô.
Nóis pede dinhero,
Nóis pede trabaio
Nóis pede pra chovê
E se chove demais
Nóis pede pra pará
Mode a coiêta num afetá.

Nóis pede amô,
Nóis pede pra casá
Pede casa pra morá
Nóis pede saúde
Nóis pede proteção
Nóis pede paiz,
Nóis pede pra dislindá os nó
Quando as coisa cumprica
Mode a vida corrê mió.
Quano a coisa aperta nóis reza
Pedindo tudo que farta

É uma pedição sem fim
E quano as coisa dá certo,
Nóis vai na igreja mais perto
E no pé de argum santo
Que seja de devoção
Nóis deixa sempre uns merréis
E lá no cofre da frente
Nóis coloca mais uns tostão.

Mais hoje Meu Sinhô
Bateu uma coisa isquisita
E eu me puis a matutá
Nóis pede, pede e pede
Mais nóis nunca pregunta
Comé que o Sinhô tá
Se tá triste ou tá contente
Se percisa darguma coisa
Que a gente possa ajudá
E por esse esquecimentp
O sinhô tem que nos adiscurpá.

Ói Deus, nóis sempre pensa
Que o Sinhô num percisa de nada
Mas tarvez num seja assim
Tarvez o Sinhô percisa de mim
Sim, o Sinhô percisa, sim
Percisa da minha bondade
Percisa da minha alegria
Percisa da minha caridade
No trato c’os meus irmão.

Nóis semo seu espêio
Nóis semo a Sua Criação
Nóis num pode fazê feio
Nem ficá fazendo rodeio
Nem desapontá o Sinhô
Nem amargá o seu sonho
Que foi um sonho de amô
Quando essa terra todinha criô.

Ói Deus, eu prometo
Vo rezá de ôtro jeito
Vo pará com a pedição
E trocá milagre por tostão
Tarvez eu inté peça uma graça
Mas antes vo vê direitinho
O que é que andei fazendo de bão.
E se nada de bão eu encontrá
Muito vo me envergonhá
E ainda vo pedi perdão.

Texto: Fátima Irene Pinto

Rouba-me, Senhor, as palavras

Rouba-me, Senhor, as palavras.
Todas essas palavras vazias da minha vida,
todas essas vozes que não são realmente a minha,
todos esses ruídos, com os que encho a minha boca
e escondem o autêntico do meu ser.

Rouba-me, Senhor, as palavras,
transforma tanta aduladora energia,
em procura de Ti, em cada esquina
e, falando-te, mesmo envolvida pelo quotidiano
saiba surpreender-te com um ousado, mas profundo “sim”.

Rouba-me, Senhor, as palavras
Leva-las, para longe de mim,
mas para longe, de tal maneira,
que já só queira dizer-Te o quanto Te quero
que assim, saiba o quanto Te preciso
Com o ritmo constante e insaciável,
Com toda a arritmia,
do meu dia-a-dia.

traduçao livre e adaptada de Anawin in ahoraqueesilencio.blogspot.com

Não sei o que te peço…

“Durante a noite, o Senhor apareceu em sonhos a Salomão e disse-lhe: «Pede-Me o que quiseres». Salomão responde:Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder....

... vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti.”

“Se Deus escreve certo por linhas tortas e a vida não é uma linha recta”, a forma como hoje vi o cruzamento das Leituras com o Salmo e o Evangelho, pareceu-me uma recta secante de doçura, na aridez das nossas vidas não lineares...
É tão desconcertante saber que Jesus diz a quem descobre o tesouro para o esconder novamente, por não o podermos ainda possuir plenamente, que quase me indigna... mas depois, na humildade de Salomão, descobrimos um caminho sobre o que vender e o que procurar no silêncio de dentro, desde dentro....
Inclinei-me então junto de Ti, Senhor, e como Salomão, não sabia o que te pedir...
Não te sabia pedir senão um coração que te saiba procurar,
capaz de perseverar,
um coração ignorante de cansaço,
um coração pujante de fidelidade,
um coração pequeno para a arrogância,
um coração cheio de tolerância,
um coração fraco de certezas,
um coração forte de dúvidas que te buscam,
um coração leal,
um coração transparente.
Porque não me é pedido que governe nenhum povo,
apenas os meus destinos pequenos,
mas a inquietude deste coração que te procura,
crê na saciedade do nosso encontro.
E que esse seja o nosso maior tesouro.

Só Deus sacia, e fá-lo infinitamente. É por isso que só podemos repousar em Deus, como disse Santo Agostinho: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto até que repouse em Ti»

«O Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido”
Mt 13, 44


Recomeço, porque a Tua mão direita me sustenta.

Existe uma personagem da mitologia grega, Sísifo tido como o mais astuto de todos os mortais, conta-se que enganou a Morte duas vezes, e como castigo, Sísifo foi condenado a empurrar, para toda a eternidade, uma grande pedra de mármore com as suas mãos até  ao cimo de uma montanha, sendo que toda vez que ele está quase alcançar o cimo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até ao ponto de partida através de uma força irresistível. Por esse motivo, todas as tarefas que envolvem esforços inúteis passaram a ser chamadas "Trabalhos de Sísifo".Tratava-se de um castigo para mostrar que os mortais não tinham a liberdade dos deuses. 

Sobre Sisifo, escreveu Miguel Torga:

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcancesNão descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomarE vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucuraOnde, com lucidez, te reconheças.

A condição humana faz de nós mestres do recomeço, todos nós, mesmo os que não o pensam ou não o sentem. A grande diferença que o Cristianismo traz em relação à história de Sisifo, é que quando recomeço, já recomeço a um nível superior e já não volto atrás. A acrescer a isso a mais valia que nos é trazida por Santo Inácio, é a da avaliação permanente para um melhor recomeço, é o da suspeita permanente que nos obriga a exercitar mente e alma, numa constante busca de um melhor caminho, não como mais cómodo ou mais delicado, tipo, alcatifado por oposição a uma qualquer calçada portuguesa, mas como o Caminho que nos conduz a Deus.

Este Caminho, não é necessariamente mais fácil, e nele não existem atalhos ou corta-matos, ele é comprido, tem pedras, pedrinhas, umas mais visíveis que outras, umas mais brilhantes que outras, mas como dizia Fernando Pessoa “pedras no caminho.... apanho-as todas.... um dia posso vir a construir um castelo!”

Estamos sempre a recomeçar, e o sol todos os dias nasce... mas para um melhor recomeço, é essencial o discernir, o avaliar e o preparar cada novo começo. Mas examinar não é só ver erros para os corrigir, mas também e sobretudo ver o que está bem para agradecer e progredir. Chegamos ao fim de mais um dia, mais um mês, mais um ano, e podemos tirar lições desta nossa história, com estórias dentro, para tentarmos saber quais os novos passos a dar no próximo dia, no próximo mês e no próximo ano, não como um exercício de negatividade, com auto-comiseração e flagelo à mistura, mas como um exercício de liberdade que nos empurra para um melhor conhecimento de nós, das nossas fragilidades, dos nossos medos, juntamente com os nossos dons, pontos fortes e graças.

Que o Espírito Santo nos ilumine para que com liberdade consigamos avaliar o ano que passou e com realismo lançarmos as pontes para o novo ano que se avizinha. 

Porque Tu és o meu auxílio,
e à sombra das Tuas asas eu exulto.
A minha alma está unida a Ti,
a tua mão direita me sustenta. 

Sl 63, 8-9

Estendeu-nos a mão…. abraçou-nos!

delta do Nilo

Moisés
Dá-me a mão
Há que cruzar o rio para chegar ao outro lado,
e sinto que as forças me faltam.
Acolhe-me como se tivesse sido abandonado,
num cesto de verga que se move ao sabor da corrente
e em que choro às luzes do crepúsculo.
Atravessa o rio comigo.
Ainda que as suas águas não se abram diante de nós desta vez
Ainda que Deus nos pareça não nos assistir
e uma nuvem de flechas nos agrida pelas costas.
Ainda que não haja Rio,
Dá-me a tua mão.
Vem comigo.

(parti de um poema de Luis Alberto Cuenca, que me tocou na versão original mas na tradução acrescentei-lhe uns pontos, porque foi assim que quis contar o meu conto...)
 

Ainda a propósito da missa de terça-feira passada, lembrei-me hoje da primeira leitura, Ex 14, e de como novamente fui abençoada por ouvir as palavras do Pe. Alberto sobre a recepção da notícia a 1 de Abril, junto às linhas que se cruzavam... de como deixou passar uns quantos comboios, só para poder rezar...
E nestas encruzilhadas, ocorre-me sempre um paradoxo, que ouvi algures... sempre nos queixamos de a vida ser demasiado curta, e paradoxalmente há dias e/ou noites que nos parecem demasiado longas, há cruzamentos, encruzilhadas que nos parecem demasiado entrincados...
Lembram-me quando vou buscar as muitas tralhas de Natal, e em que me aparecem sempre as “malditas” luzinhas que os meus filhos adoram, todas embaraçadas.... e o trabalho que tenho a desembaraçar, que muitas vezes nem sei por onde começar, e tem mesmo que ser por algum lado... mas as luzinhas são sensíveis... e se uma se parte muitas vezes toda a fiada já não acende... demoro minutos que parecem horas.... desembaraço, dou voltas... passa por baixo... passa por cima... às vezes ponho de parte... sento-me e rezo... e deixo uns comboios passar... depois, arregaço mangas e volto a abraçar a minha pequeníssima missão, de desembaraçar aquele “ninho de ratos”... e assim que acabo, e as ponho no presépio a iluminar o caminho das ovelhinhas, dos pastores, dos magos, e de os que mais se quiserem juntar (porque as crianças resolvem sempre que há mais uns quantos seres que também querem correr para ver o menino Jesus) até à gruta onde coloco a última luzinha, e depois ligo a ficha e oiço aquele “oh” de deslumbre e espanto das minhas crianças, sinto que valeu a pena, todo o trabalho de desembaraço, de opções que tive que tomar, para cuidar do sorriso dos meus filhos e lhes aquecer os dias e as noites com o meu abraço.

Assim vi o sorriso e a calma do Pe Alberto, qual Moisés frente ao povo hebreu, que nos dá a sua mão, mas mais, que nos abraça, tranquilo e sereno, a nós província portuguesa da Companhia de Jesus, que somos todos... os Jesuítas e os leigos, homens e mulheres, e nós CVX em particular... que também somos chamados a desembaraçar as nossas luzinhas, escolher, deixar passar alguns comboios, mas arregaçar mangas e começar a pensar em atravessar rios, pedir mãos, se for preciso, pedir pontes, se necessário, construir pontes, onde não hajam... e seguir... ainda que não haja rio!

E, indicando com a mão os discípulos, acrescentou:
«Aí estão minha mãe e meus irmãos;
pois, todo aquele que fizer
a vontade de meu Pai que está no Céu,
esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
Mt 12, 49-50