Archives for July 2011

Semeia em mim, Senhor!

Três esfinges de bikini - Salvador Dali

Semeia em mim, Senhor
Tua palavra no fundo do meu coração
para que nunca os pássaros de palavras vazias
corrompam e roubem o que Tu tens pensado para mim.

Semeia a tua palavra nos meus lábios,
e que por onde eu vá
seja mensageiro do teu Reino e da tua justiça
da tua bondade. da tua graça e do teu Amor.

Semeia em mim, Senhor
A tua palavra na minha mente
para que quando o mal me tente
saiba responder com força e clareza
a tudo o que pretenda afastar-me de Ti
a tudo aquilo que me confunde e mata
a tudo aquilo que mostrando-se como nobre
não é senão confusão, espinhos e traição.

Semeia em mim, Senhor
A tua palavra em meus pés,
E onde eu vá, deixe pegadas da tua presença,
E onde eu caia, a tua mão sempre me alcance
E onde eu suba, saiba encontrar-Te,
E onde eu desça, saiba que Tu me esperas.

Semeia em mim, Senhor
Profundidade que resista à superficialidade
frutos de eternidade, que resistam ao efémero
confiança, que resista ao desespero,
ânimo, que resista ao pessimismo.

Senhor, semeia em mim, ainda que eu resista
ainda que ande por terrenos pedregosos
ainda que muitas vezes me vença a tentação
ainda que outras tantas, prefira ser contaminado
pelos espinhos que tudo abafam.
Senhor, eu te peço, semeia em mim!

Javier Leoz
(tradução livre)

Em silêncio descobri essa cidade no mapa

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder
Impressiona-me sempre o que posso descobrir no silêncio e o que os outros descobrem nele. O poema, oscila entre um silêncio lento e calmo e um silêncio veloz e furioso, o que tem graça, por ser assim que vejo os meus movimentos interiores... vai de um silêncio rastejante a um silêncio voador, com asas, que nos permite o gozo da liberdade, no seu expoente máximo...
Agora nos meses da silly season, é de aproveitar este dom extraordinário que temos, de poder ouvir o nosso silêncio, e nele descobrir cidades no nosso mapa.
Dá pano para mangas, se o quiserem rezar... eu gostei...