Archives for August 2011

Da China, com amor

Há dias almoçava com amigos e falou-se da China. Nos dias que correm, devido à “desgraçada da crise” que tem umas costas larguíssimas, aqui para nós, o dinheiro tornou-se de facto uma prioridade em quase todas as casas e famílias do mundo. “É preciso pagar contas”, oiço vezes sem conta. Realmente, essa coisa da fé e da espiritualidade (que muitos não sabem significar despertar) não paga contas, nem enche barrigas!

Sob este pretexto, quase todos os meios são justificados... e até parecem ter uma lógica válida.

Dizia eu, que há dias falou-se da China. Eu mantive-me bastante silenciosa, durante grande parte da acalorada discussão gerada, o que não me é assim tão comum, mas com um olhar expectante. Tinha sido a primeira frase da discussão que me tinha cortado o pio.

Um amigo que viaja muito para a China, que lá tem negócios, trabalho, que se inscreveu na faculdade lá, para aprender mandarim, não só a língua, como história e costumes, tradições e pensamentos, e que se encontra rendido ao poder económico, dimensão, e organização da China, abriu as “hostilidades” da seguinte forma: Grande parte daquilo que se diz sobre a China, revela profunda ignorância, muito é falso, e desconhecedor da realidade chinesa. Face a isto, mantive-me o mais calada que pude... de facto, da China sei muito pouco, e sempre me interessou mais a perspectiva da China antes de 1422/23, do que a posterior... A China aberta de então, era de facto de uma admirável grandeza, com um potencial cultural, humano, e filosófico extraordinário... depois, tudo se tornou fechado, baço, e de que poucos podem falar com conhecimento de causa.

Inegavelmente, quem procura a China por razões de trabalho, para ganhar dinheiro, é capaz de se deslumbrar: dizia este amigo, que numa aldeia a 150km de Pequim, onde esteve a estudar perguntavam quantos habitantes tem Portugal... quase 10 milhões... aquela aldeia tem 20 milhões.... e é pequena! Agora punhamos isto na perspectiva de mercado: é só crescer! Além disso, defendia ele, obviamente, que não pode deixar de haver ditadura, por uma questão de paz social: são não-sei-quantos biliões, não há forma de se governar tanto milhão senão for desta maneira, para que tudo aquilo pareça uma máquina oleada! Trabalham 24 sobre 24 horas... marcam reuniões à meia-noite, se preciso for, fazem tai-chi nos jardins, fazem 3 refeições equilibradas por dia, em que jantam às 5 da tarde, e depois continuam a trabalhar, usam muito pouco açucar ou sal, praticamente não consomem produtos lácteos porque os consideram tóxicos... e por aí adiante.

Pois foi no açucar ou sal que me indignei! Que raio de vida é essa, sem açucar nem sal?

Onde trabalham mais do que vivem, onde os valores humanos, são totalmente desvalorizados, onde o conceito de família, com calor, não aparece, onde somos mandados porque somos muitos, e onde a censura se justifica a pretexto de paz social... concordo que não é preciso dizer/saber tudo, mas daí a pôr o regime ditatorial nos píncaros, justificando os meios, vai uma distância abissal!

Nem de propósito dou pouco depois com esta notícia:

Lisboa, 25 ago 2011 (Ecclesia) – A diocese católica de Tianshui, no noroeste da China, está neste momento sem administrador, depois das autoridades policiais terem detido o padre John Baptist Ruohan, em conjunto com dezenas de sacerdotes e leigos.A actuação das forças de segurança, que levou ao cancelamento do retiro anual da comunidade cristã de Tianshui, previsto para esta quarta-feira, pode ter acrescentado um novo capítulo ao diferendo que opõe o Estado chinês ao Vaticano, vai para 60 anos.
Desde 1951, dois anos depois da revolução cultural que instaurou o governo comunista, que Pequim não tem qualquer tipo de relação diplomática com a Santa Sé, por não aceitar ingerências externas nas decisões de âmbito religioso no país.

A 28 ago 2011 o Papa Bento XVI afirma que a vida humana não pode ser pautada apenas por critérios de “sucesso” e bem-estar económico, prescindindo da presença de Deus.
“Quando a realização da própria vida é orientada somente pelo sucesso social, pelo bem-estar físico e económico, já não se raciocina segundo Deus, mas segundo os homens”, alertou o Papa, falando aos peregrinos católicos. E continuou: “o cristão segue o Senhor quando aceita com amor a própria cruz, que aos olhos do mundo parece apenas uma derrota e uma ‘perda da vida’, sabendo que não a leva sozinho, mas com Jesus, partilhando o seu caminho de doação”.
O Papa afirmou ainda que o “desejo mais profundo de cada pessoa” é a “alegria eterna”, a “felicidade eterna” que só Deus pode dar, apelando a uma “oração regular e confiante”.

Posto isto, dei por mim a pensar: o que é que eu tenho a ver com a China?

Mas Ele disse-lhes:
«Tenho de anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus
também às outras cidades,
pois para isso é que fui enviado.» Lc 4, 44

Pasme-se!

"Como ele sempre dissera: o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida."
Mia Couto in A chuva Pasmada 

A Chuva Pasmada, de Mia Couto, conta a estória de uma chuva que está suspensa no ar, porque indecisa entre o Céu e a Terra. Mas mais que isso, trata-se da história de vidas pasmadas. O narrador-personagem, um menino tido por seus pais como “lento no fazer, demorado no pensar” (COUTO, 2004, p. 07), irmana-se com essa chuva.
No prefácio do livro podemos observar a importância do repassar da experiência pelos mais velhos:
Ante o frio, faz com o coração o contrário do que fazes com o corpo: despe-o. Quanto mais nu, mais ele encontrará o único agasalho possível – um outro coração. (COUTO, 2004)
O avô aconselha, indica uma direcção dada pela sua experiência. A ideia-chave para este dizer do avô é: pasmaceira. Não a da chuva, parada entre céu e terra, negando a sua natureza de cair, mas a das pessoas, a dos corações.
O estado de pasmaceira realiza-se na chuva assim como no menino. Mas está também sobre o pai do narrador-personagem, que não cumpre a sua função de homem, não trabalha mais, apenas dorme: “O fundo da terra levara o meu pai de mim, sem o levar da vida” (COUTO, 2004, p. 14); está no avô, que já se deveria ter deixado levar ao mundo dos mortos, mas não tinha coragem de morrer: “Quando eu era menino, cheio de vida, eu sabia morrer. Agora, que já vou pra despedida, esqueci como se morre”, está na tia, que permaneceu solteira e sem filhos para muito além do tempo conveniente às mulheres da aldeia: “A tia amadurecera sem o calor de homem, noivo, marido. Não se contemplam tais adiamentos nestes nossos lugares” (COUTO, 2004, p. 17).
Assim, podemos encontrar toda uma família em estado pasmado, contrariando o que seria de bom senso para comunidade a que pertence, desnaturando-se, como a chuva que se suspendeu no ar. Cada integrante da família tem uma questão específica a resolver, alguma questão que se arrasta e que depende de alguma acção para se desfazer.
O próprio título do livro já anuncia o conflito estabelecido. Ao longo do livro vamos encontrando pistas que irão identificar o quão pasmadas estão não só a vida das pessoas, mas da comunidade em geral. Existe, porém, grande dificuldade em identificar os motivos para tal desequilíbrio, uma vez que há muitos factos desarmonizantes na sociedade que irão aparecendo ao longo da narrativa.
Em Chuva Pasmada, Mia Couto, descreve uma realidade vivida hoje em África de língua portuguesa, onde a sociedade encontra-se em pleno estado de pasmaceira, mas ao lê-la vi muito para além de África e diria que é quase um tratado sobre todos nós, em todo o mundo. A narrativa aponta diversos motivos: a perda da identidade, a valorização da cultura do colono e, principalmente, a desistência da luta. O conflito resolve-se com o equilíbrio de toda a família, na tia que é perdoada, no avô que se deixa partir, no pai que abandona o seu estado vegetativo, na mãe que recupera sua família, mas principalmente no menino, a nova geração, que vê resgatado o seu caminho.
Eu deixei-me pasmar...

Creio, firmemente, vir a contemplar a bondade do Senhor,
na terra dos vivos.
Confia no Senhor! Sê forte e corajoso,
e confia no Senhor!
Sl 27, 14

O QUE QUEREMOS VER HOJE?

O que queremos ver hoje?

Hoje é segunda-feira, início de uma semana de trabalho para uns, ainda férias para outros... por isso pareceu-me adequada a pergunta: O que quero ver hoje?

Frequentemente sentimos que o que vivemos e vemos é qualquer coisa que nos acontece. Que o que experienciamos depende de outras pessoas e do resto do mundo, quando na verdade temos o hábito de ver o que queremos ver. Se quisermos ver conflito, conseguiremos vê-lo em qualquer aspecto da vida. Se quisermos ver beleza, conseguimos vê-la também.

Assim que acordamos, começamos a criar a nossa perspectiva da vida.

Se pudéssemos começar o nosso dia, uma vez mais, o que gostaríamos de ver?

Voltei ao blog de Sri Chinmoy, porque me pareceu pertinente esta escolha que todos podemos fazer.

Boa semana!

“E eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada,
como coluna de ferro e muralha de bronze” Jr 1, 18

VELHOS E RABUGENTOS?

VELHOS E RABUGENTOS!

No Reino Unido há um programa de televisão que se chama  Velhos Rabugentos (Grumpy Old Men). É suposto ser uma comédia, um programa de entretenimento, divertido, que nos faz rir, onde pessoas de meia-idade se queixam de tudo, desde o preço da gasolina à excessiva popularidade de programas como os Ídolos ou o Big Brother. De certa forma as suas queixas são realmente divertidas, mas passado o primeiro impacto, do riso e da piada fácil, vale a pena pensar nisso... como é que eu vou ser daqui a 10, 20 ou 30 anos? sempre a queixar-me e a ser rezingona? Muitas vezes vemos pessoas que a princípio têm uma mente esperançosa, positiva, mas que 10 anos depois (e não consigo ir mais longe, mas a tendência é a agravar-se nos 20 e 30 anos seguintes) vão perdendo as  suas qualidades positivas, que foram sendo ofuscadas e subtilmente substituídas por uma propensão para a rabugice, miserabilismo e negativismo. Sempre ouvi amigas, e com certeza as suas mães antes delas, a dizer às amigas mais próximas: “se algum dia eu ficar como a minha mãe, avisem-me e internem-me!” como forma de tentar não seguir este caminho quase inevitável da rabugice... feliz ou infelizmente, são mais frequentes as vezes em que todos os intervenientes se esquecem dessas palavras, do que os internamentos efectivos! Há, obviamente, maneiras de dar a volta, é só ter vontade...

Na vida de Jesus, vemos isso vezes sem conta, em atitudes desconcertantes, até rebeldes, que nos deixam estupefactos se nos tentarmos imaginar presentes nalgumas delas: imaginar-me perto da mulher adúltera, a ver quem atira a primeira pedra... imaginar-me perto dos pescadores a quem Jesus diz para deixarem tudo e seguirem-no, a ver qual de nós deixava tudo, ou como Marta, que sempre fazendo tudo o que achava correcto, acabava por não perceber porque era a irmã quem ficava com a melhor parte... e queixou-se!

De todas as possíveis pistas para contrariar esta tendência, há algumas que escolhi para partilhar:

  • Discernir: tentando fazer o exame de consciência diário, com as regras dos 4 P’s, tentemos em cada dia, escolher uma coisa para agradecer, uma coisa para pedir perdão, um propósito, e mantermo-nos fieis a este.
  • Não ficar preso a rotinas:  as rotinas podem ser boas e fornecer-nos uma sensação de segurança, mas ficar presos a elas faz da vida uma chatice, deixamos de nos surpreender . Se estamos sempre a queixar-nos do mesmo, tentemos mudar qualquer coisa, e se necessário obriguemo-nos a uma nova actividade, procuremos formas de ver a vida de uma nova perspectiva
  • Não se exasperar com coisas das quais não temos controlo: se o preço da gasolina sobe, não há muito que possamos fazer, e por mais que nos queixemos a OPEP não vai produzir mais 10.000 barris por dia para que todos possamos ter gasolina mais barata. Tentar não deixar que a vida seja dominada pelo que não nos agrada no mundo, sem com isso ser conformista... mas no que de nós não depende, não adianta tentar controlar!
  • Ter a perspectiva de uma criança: Nunca nos referimos às crianças como “olha aquele bando de crianças rezingonas, de mal com a vida” (em princípio...). É verdade que as crianças fazem birras e podem estar de mau humor, volta e meia, mas passa-lhes rápido, porque para as crianças, o mundo é simples e um sítio maravilhoso, a vida não é complicada, mas sim divertida. O problema é que como somos adultos e sofisticados, temos que ser melhores que isso!
  • Deixar o criticismo para os outros: criticismo e rabugice estão intrincadamente ligados. Se passarmos o tempo todo a criticar os outros e a fofocar sobre as suas vidas, desenvolvemos seguramente uma atitude mental negativa e maior apetência por continuar a criticar mais e mais, sem que com isso nos preocupemos com a nossa própria vida, e sem com isso mudarmos o que quer que seja.
  • Ser flexível: definitivamente em crise! As pessoas hoje pouco ou nada sabem de flexibilidade e o que sabem perde-se com a idade: esperamos que as coisas sejam feitas de uma certa maneira, se não são, irritamo-nos e resmungamos! Se tentarmos ser um bocadinho mais como os ramos da árvore, que balançam para poder suportar os ventos, talvez a brisa nos saiba melhor, e as tempestades não nos quebrem.
  • Auto-conhecimento: procurar conhecer o nosso estado de espírito: para não nos deixarmos levar pelo negativismo.
  • Atitude positiva: evitar ser miserabilista. O mais eficaz, é praticar a virtude oposta: ser positivo, procurar o lado bom das coisas, tentar estar activo e dinâmico, mesmo que para isso tenhamos que nos envolver numa nova actividade. Começar é a palavra de ordem!
Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom, o que lhe é agradável, o que é perfeito. Ao serviço da comunidade
Ro 12, 2
Fonte de inspiração:

OTHER 6!

Os outros 6!

Muitos de nós encontramos Deus aos domingos na Igreja. Óbvio! se vamos lá só para isso, o mais natural, é que nos seja evidente a sua presença e este encontro! Tenho, para mim, que não é assim tão simples...

Ainda que o seja, falamos de um dia, numa semana de 7, para a grande maioria das pessoas. E os outros 6?

Ao entrar para a CVX, e na busca permanente de discernimento, na tentativa de uma exame diário de consciência, muitas vezes a pergunta que se coloca é: E Deus?, onde encontrei eu, Deus, hoje? e onde é que senti que precisava de O encontrar? Isto, 7 dias na semana... Ora, se ao Domingo, poderia tomar como certo a sua presença na Igreja, bem como outros dias em que vamos ter com Ele à Sua Casa, então e no resto do tempo?

A pergunta “ e os outros 6?” coloca-se-nos, relativamente a todo o tempo em que não estamos fisicamente tão perto da evidência, de uma forma patente... ainda que, nos dias que correm, não tenha a certeza se a mesma interrogação, não se nos deva ser colocada mesmo perante a evidência física...

Na minha deambulação pela web, que, como há algum tempo um amigo me dizia, é como  um cesto de cerejas, quando se puxa uma vêm sempre outras atrás, descobri um blog, com uma ideia genial: o “Other 6”! Simples, prático e up to date com as novas tecnologias!

Pegando no exame de consciência inaciano, e adaptando-o aos dias de hoje, quer à rapidez com que tudo se passa, quer aos meios de comunicação utilizados, coloca-nos duas questões muito básicas: Onde descobriu Deus hoje? e Onde precisa de descobrir Deus, hoje?

Jesuíta e catolico, na sua inspiração, o Other 6, é uma comunidade on-line da Loyola Press, sem qualquer agenda pré-fixada, que apenas pretende a partilha desta busca incessante de Deus. Não se pretende grandes reflexões, antes tentativas de resposta simples e até 140 caracteres, que sejam acessíveis a todos.

Gostei e aderi! Acho útil esta proximidade... não há obrigações, não há recriminações, apenas se pretende partilha, espírito comunitário, tal qual hoje em dia começam a ser concebidas as comunidades.

O mais engraçado, foi ter aderido e ter colocado no meu primeiro post: Hoje encontrei o “Other 6”, encontrei Deus no meu computador. Básico, não? foi seguido de inúmeras respostas de boas vindas e de acolhimento, e desta maneira tornei-me presente nas orações daquela comunidade. E ela, nas minhas.

Gostava de trazer este projecto para Portugal, em português.

http://www.other6.com/

As minhas três velas

Muitas vezes rezei pedindo a Deus que iluminasse o meu caminho. Pedia-lhe 3 velas.

Eram 3 velas, pois cada uma tinha a sua função conforme fosse percorrendo a estrada que a vida configura. A primeira vela que pedia era para que iluminasse os obstáculos, de forma a que os conseguisse ver, tirar medidas, e não tropeçar. A segunda, era uma vela para que visse que há caminho depois dos obstáculos, para que me desse alento, puxasse por mim e me dissesse que sou capaz, me fizesse querer seguir em frente, ultrapassando tristezas e dúvidas, todas as adversidades. A terceira vela que pedia, seria para me dar luz, como quem dá a mão para que continuemos juntos o Caminho.

Deus, no seu imenso amor paternal que me tem, deu-me as três velas, que hoje agradeço. A minha filha mais velha, cuidadosa, que tudo observa e que me chama a atenção para o que não está como seria de esperar, com uns olhos brilhantes e sorriso tímido, mas sincero, iluminado. A segunda filha que me foi confiada, é corajosa, destemida, é quem está do outro lado do obstáculo, porque já o passou e do outro lado espera por nós, chama-nos, cativa-nos e desvia a nossa atenção de qualquer dificuldade, com uns olhos risonhos, que nos alegram e nos mostram, se quisermos ver, que a vida tem muitas cores, e a luz que nos dá alimenta a sensação de que somos capazes de vencer qualquer barreira. A terceira vela, é o meu filho mais novo, meigo, que me dá a mão, que me pede a mão e com olhos negros radiantes me diz: vamos, que ainda temos muito caminho juntos!