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A escalada

Favela e Músicos, Candido Portinari

A escalada, é uma oração que escrevi, para a catequese... a ideia era surpreender as crianças de 10 anos com um instrumento que lhes é familiar, ainda que não o soubessem desde o início.
Frequentemente, a catequese é "uma seca", ouvia-os dizer...
No final deste encontro, quando desvendei a fonte de inspiração da oração, os olhos deles brilhavam, de espanto, e nessa surpresa, tive a certeza que qualquer coisa, naquele dia, entrou...
Gosto desta música, e acho que é bom, é positivo, procurarmos Deus no mais improvável, no mais pequenino, sem preconceitos, com todo o humor, com que Ele nos abençoa os dias da vida.
Hoje, a propósito das leituras do dia, voltei a reescrever e deixei-me embalar pela voz dela... por mais encanitante que a pessoa em si me possa parecer...
Convosco partilho:

A ESCALADA
Muitas vezes sinto que quase posso ver
o cimo da montanha que estou a escalar,
No sonho, que estou a sonhar.
mas, baixinho, vou ouvindo uma voz pelo caminho
dentro da minha cabeça que me diz:
Que nunca o vou alcançar.

Há momentos em que
Cada passo que dou
Cada movimento que eu faço,
me parece
Perdido, sem direcção
São momentos em que a fé me treme,
Em que me deixo abater pela desolação.
Mas sinto, sempre sinto, que tenho que continuar a tentar
Tenho que manter a minha cabeça erguida e caminhar.

Haverá sempre outra montanha
Vou sempre querer que ela se mova,
Vai ser sempre uma batalha difícil
E por vezes vou ter que perder.

Não é sobre o quão rápido eu lá chego
Não é sobre o que me espera quando lá chegar
Ao outro lado.
Hoje eu rezo, só,
Pela escalada.

Pelas lutas que todos os dias enfrento,
Pelos caminhos que eu escolho e vou escolhendo,
Mesmo quando caio,
Não me quero vencida.

Ainda posso não saber que
estes são os momentos que
mais vou lembrar.

Mas sinto, Senhor,
Que tenho que continuar
Que tenho que ser forte
Levantar e caminhar.

Haverá sempre outra montanha
Sempre hei-de querer que ela seja menor,
Sempre hei-de achar cada luta, a mais difícil
Vezes haverá em que terei de perder

Mas no fundo sei, que o importante não é o quão rápido eu lá chego
É o que eternamente me espera do outro lado
Por mais lenta que seja a minha escalada.

Aqui fica a versão original de quem me inspirou... para quem a abrir, não vale fechar, sem dar uma oportunidade à música e à rapariga que a canta... 🙂

http://www.youtube.com/watch?v=jpTYG_Sqqdg

Por isso, não vos deixeis condenar por ninguém,
no que toca à comida e à bebida,
ou a respeito de uma festa,
de uma Lua-nova ou de um sábado.
Tudo isto não é mais que uma sombra das coisas que hão-de vir;
a realidade está em Cristo.
Não vos deixeis inferiorizar por quem quer que seja
que se deleite com práticas de humildade ou culto dos anjos.
É gente que, dando toda a atenção às suas visões,
em vão se gloria com a sua inteligência carnal.
Cl 2, 16-18

J&B

Esta coisa da contemplação da vida pública de Jesus é deveras desconcertante... pelo menos para mim! Tem dias em que O acho provocador e prevaricador da lógica humana tal qual ela se nos é compreensível.

Bom... aceito o argumento, de que isso é o que é suposto... mas a verdade é que inverter toda a lógica racional, perverter por completo a matemática humana e ainda sorrir no fim, deixa-me desolada.

Partilho, então, o que se me ocorreu nestes últimos dias, a propósito das várias leituras e evangelhos. Não é, de todo, aconselhável a leitura destas reflexões, porque meramente teóricas, estéreis e imbuídas de alguma revolta e desolação, próprias de quem sente que falta muito caminho...

Na leitura de episódios como o de hoje, e outros como o do filho pródigo, o do bom samaritano, o da mulher adúltera, e outros que tais, sistematicamente os critérios humanos de justiça, são deitados por terra: ora, se a lei mandava apedrejar, porque não se cumpriu a lei? se o critério máximo é o de justiça, então estou totalmente de acordo com o filho mais velho: que raio de direito tem o mais de novo, aquele que gastou toda a herança com prostitutas, de ser acarinhado pelo Pai, que, além de feliz com o seu regresso, ainda lhe coloca manto, anel e sandálias, e manda fazer uma festa de arromba com tudo o que há de melhor?

Já trabalhados e lidos estes textos, muitos de nós sabemos a resposta correcta: é só um copo de JB, para que tomemos um golo, e de um só golo, matamos a charada.

JB, whisky comum, ao alcance de todos, é uma mnemónica brilhante que me foi dada a conhecer pelo Afonso Seixas, sj, recentemente. Trata-se dos critérios humanos por oposição aos critérios divinos: Justiça vs Bondade.

A chave para a compreensão destes textos não é nem a de critérios de justiça, nem muito menos de linearidade matemática, mas antes são critérios de bondade divina que pautam a actuação de Jesus.

Por isso, e apesar de negado por Pedro três vezes, ele volta-se, olha e perdoa, não por uma qualquer justiça, mas porque nos seus critérios de bondade e misericórdia não suporta que Pedro se sinta só e perdido.

Assim, revendo as leituras à luz destes critérios, compreendemos rapidamente que importa mais a ovelha perdida ser encontrada, o filho que regressa, a mulher que é perdoada, do que uma qualquer lei justa.

Matematicamente, dispensam-se as sequências de Fibonacci da vida: No filho pródigo a equação correspondente é 2-1=2, aquele filho, nunca deixa de ser filho. Em Isaías 49, 14, a equação é 1-1=1, ainda que uma mãe esqueça o seu filho, Deus não o esquece, em Jo 5, 17, 1+1+1+1+1+1+...=1, pois Deus vive continuamente em cada um de nós e revê-se continuamente em cada um dos Seus filhos, como se únicos fossem, ao longo de todo o tempo. Sistematicamente ao longo de toda a Bíblia, 1=1+1+1+1+..., pois Deus é em todos e cada um de nós, mas é só um. Este é o mistério.

Mais um golo de JB e tudo fica claro...

“Estava lá um homem com a mão direita paralisada. Então os doutores da Lei e os fariseus observavam Jesus para verem se ele o curava, sendo sábado, pois queriam achar uma razão para o acusarem.” Lc 6, 6-7

Sejamos práticos!

Química de um pão

Quando ser prático?

À medida que três viajantes atravessavam as montanhas dos Himalaias, iam discutindo a importância de pôr em prática tudo aquilo que tinham aprendido no plano espiritual. Iam tão absorvidos pela sua conversa que só de noite, realizaram que tudo o que tinham para comer era um pedaço de pão.

Decidiram então não discutir quem o merecia comer, como eram homens pios, decidiram deixar a decisão nas mãos de Deus. Rezaram, então, para que, durante a noite, Deus os iluminasse e lhes indicasse quem deveria comer o pão.

Na manhã seguinte, os três homens levantaram-se ao nascer do sol.
“Este foi o meu sonho”, disse o primeiro viajante. “Fui levado para lugares que nunca tinha visto antes, de uma paz e harmonia, que procurei toda a minha vida na terra, em vão. no meio desse paraíso, um homem sábio, com uma longa barba disse-me: “és o meu escolhido, nunca procuraste o prazer na terra, sempre te despojaste das coisas terrenas. Em prova do meu reconhecimento por ti, gostaria que provasses um pedaço de pão”
“Que estranho!”, disse o segundo viajante. “Pois no meu sonho, vi o meu passado de santidade e o meu futuro como mestre. E à medida que vislumbrava o que está para vir, encontrei um homem de grande sabedoria que me disse: “Tu precisas de alimento, mais do que os teus amigos, pois tu terás de governar muitos povos, precisas de força e energia”.
Então, o terceiro viajante disse:
“No meu sonho, não vi nada, não fui a lado nenhum, e não descobri nenhum homem sábio. Contudo, a uma certa hora da noite, acordei em sobressalto. E comi o pão!”

Os outros dois ficaram furiosos:
“E porque não nos chamaste, antes de tomar essa decisão sozinho?”
“Como podia eu? Ambos estavam tão longe, a descobrir mestres e a ter visões sagradas!”
“Ontem discutimos a importância de por em prática aquilo que aprendemos no plano espiritual. No meu caso, Deus actuou depressa e fez-me acordar a meio da noite, a morrer de fome!”

Mohammed Gwath Shattari


Irmãos: Por isso, também nós, desde o dia em que ouvimos falar disso, não cessamos de orar por vós e de pedir a Deus que vos encha do conhecimento da sua vontade, com toda a sabedoria e inteligência espiritual, a fim de caminhardes de modo digno do Senhor, para seu total agrado: dai frutos em toda a espécie de boas obras e progredi no conhecimento de Deus; Cl 1, 9-11