Archives for July 2012

Qual deles?

A propósito do Evangelho de hoje lembrei uma história que li há dias na net, de autor desconhecido. Adaptei-a e traduzi-a livremente , deixo-a em jeito de partilha...

O superior de um outrora famoso mosteiro andava profundamente perturbado. Os monges desleixaram-se nas suas práticas, os noviços partiam e os leigos apoiavam outros centros. Viajou então para um local longínquo para encontrar um sábio de que lhe tinham falado, a quem contou a sua aflição e o quanto gostaria que o seu mosteiro voltasse a ser o que já fora nos dias de grande esplendor.
O sábio olhou-o nos olhos e disse: A razão pela qual o vosso mosteiro se desleixou é porque Jesus está a viver convosco mas disfarçado e não foram capazes de O tratar como deviam.
O superior apressou-se a regressar. A sua cabeça estava uma confusão...
O próprio Jesus estava no seu mosteiro? Como era possível? Seria o irmão Nuno?... Nã... esse era um preguiçoso sem tamanho.... Seria o irmão Miguel? Também não... esse era muito aborrecido.... Mas ao mesmo tempo sabia que ele estava disfarçado... que melhor disfarce do que preguiçoso ou aborrecido?
Quando chegou, chamou os monges e revelou-lhes o que o sábio tinha dito. Também eles ficaram perplexos e entreolharam-se desconfiados.
Qual deles seria Jesus?
O disfarce era perfeito!
Não sabendo qual deles era, passaram a tratar-se como se cada um fosse o próprio Jesus. As suas caras transformaram-se por completo, passando a ostentar um sorriso que reflectia um brilho interior que atraía os noviços e depois os leigos.
Em menos de nada, o mosteiro ultrapassou a sua antiga glória.

"Este é o meu servo, a quem eu escolhi, o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito e ele anunciará a minha vontade aos povos.
Não criará conflitos nem gritará, nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
Não quebrará a cana pisada, nem apagará o pavio que ainda fumega, até que a minha vontade vença.
É nele que os povos hão-de pôr a sua esperança."

Mt12, 16-21

Onde está o Wally?

Onde está o Wally?

Verão na cidade

Sabemos que o Verão voltou quando o trânsito se faz esparso e há lugares para estacionar em todo o lado. Nas conversas de elevador, logo antes ou depois do habitual resmungo sobre o estado do tempo (ou porque já o Verão não é o que era, ou porque faz um calor fora do comum….) entra a inevitável questão: ”então, já foi de férias? ou vai ainda…?”, e saímos apressados sem querer realmente saber a resposta. Ano após ano, repete-se inexorável o ciclo das estações, indiferente às crises financeiras ou “dos mercados”, indiferente mesmo às alterações climatéricas e aos prognósticos apocalípticos mais ou menos científicos que fazem manchete. Indiferente ainda, sobretudo, ao estado de alma de cada um: goste-se ou não, “é Verão”, voltaram as t-shirts, os chinelos e os calções, as filas para a ponte sobre o Tejo e as melgas zumbindo nas noites abafadas. Pesa-nos o cansaço do “ano de trabalho”, que descreve tudo o que passou desde as últimas férias, tão depressa que custa acreditar, e contudo sempre mais penoso e demorado quanto mais perto do seu termo. Contam-se os dias numa antecipação expectante, com a apreensão dos detalhes práticos (“ e se as malas não chegarem?”, “e se a casa alugada não prestar?”). Mesmo se regressamos ao lugar de sempre, povoado das memórias de um eu que já não somos, mais jovem e inseguro, confiante nas promessas de um futuro que entretanto se fez passado. Surpreendendo-nos de cada vez com o que “tudo mudou”. Recusando admitir que mudámos sobretudo nós e que é por isso que já não podemos voltar “lá”, como na Viagem exemplar da Sophia ou na corrente das águas de Heraclito.

Senhor, que eu saiba reencontrar-Te neste Verão, dizendo com Santa Teresa d´Ávila:

“Nada te perturbe,

Nada te espante,

Tudo passa,

Deus não muda…”

Senhor, que a Tua graça me baste.

Concha Balcão Reis (“ABBA”)