Tempo… eu? Não sei se tenho…

Este é um excerto que sempre me acompanha.

Eclesiastes 3

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;

Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;

Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?

Tenho visto o trabalho que Deus deu aos filhos dos homens, para com ele os exercitar.

Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.

Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida;

E também que todo o homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus.

No próximo domingo, era bom que todos tivéssemos tempo para a CVX. "O nosso tempo é das poucas coisas que podemos oferecer a Deus". Disse-me um dia o Afonso Seixas Nunes, sj. "tempo e silêncio.... tudo o resto, apenas devolvemos."

Coragem, povo todo do país! Mãos à obra! Ag 2, 4

Junto ao mar…

Faço uma caminhada junto ao mar ou à foz do rio pela manhã.

Felizmente são raros os dias em que o sol não brilha e consumo essa luz para recarregar baterias.

Usualmente fazia-o de óculos escuros, porque é cedo e os meus olhos não se habituaram  ainda à claridade.

Reparei, que, ultimamente, tenho deixado os óculos escuros para trás. Começou por ser inconsciente, mas acabou por se tornar voluntário, propositado.

Parto, e vou... vou contra o sol, ofuscada pela luz da madrugada... com o diminuir dos dias a luz vai ficando mais suave e a transição é menos agressiva... mas até agora, ia contra o sol, ofuscada: abro e fecho os olhos, entreabro e semicerro, como quem busca a luz, mas receia a sua intensidade... como quem reza e pede a Deus... pede por mais Deus na vida, sem que se aperceba que também isso tem um preço a pagar: há vezes em que a intensidade é um excesso, em que coração e alma parecem não aguentar o peso dessa Presença. E ainda assim continuo... continuamos...

Volto, com o sol pelas costas. Já reconciliada com a intensidade, e agora com a luz como companhia, iluminando tudo o que me rodeia.

Com calma, apercebo-me de novas presenças, de novos contornos, todos os dias diferentes... desfruto de cada um em que reparo, consoante a luz me guia.

E, então, agradeço, a Sua presença na minha vida.

“Vem comigo” Mt 9, 9

O perigo da oração “ilusa”

Há uma imagem distorcida da oração segundo a qual a oração é uma actividade contraposta ao mundo real, à nossa vida quotidiana.. É certo que há movimentos religiosos, católicos e não católicos, que recomendam a oração como uma fuga da vida do dia-a-dia. Santo Inácio, mestre da oração, não recomenda qualquer oração, nem o quanto mais melhor, antes que mantenhamos uma certa suspeita sobre as rasteiras e auto-enganos que pode encerrar uma oração mal-entendida.

A oração, para não ser uma ilusão, deve ter origem na vida, e ser implicada com a vida (destino). Por ela, Santo Inácio, pretende levar a pessoa a encontrar Deus em tudo, partindo do princípio que Deus e o mundo não são duas realidades contrapostas: sentido unitário, que permite uma conexão espontânea entre contemplação e acção.

Assim, há algumas pistas que nos deixa para que oração e vida estejam sempre intimamente ligadas:

  • A oração deve fazer-me sair de mim mesmo, ser a ante-sala do serviço, ao próximo, e por sua vez que o serviço seja o abono da oração, ciclicamente.
  • A oração não evita nenhum sofrimento na vida, não é nem analgésico nem anestésico, mas sim permite a lucidez e a força para encarar o sofrimento e dificuldades da vida com outra perspectiva.
  • A oração deve ser objectivada, precisa de ser contrastada com os actos na vida do dia-a-dia, não sou eu a origem e meta da oração mas antes Deus e os que estão à minha volta.
  • A oração deve ser “contrastada”: nela entram em jogo muitas dimensões psicológicas, umas favoráveis outras de auto-engano. Por isso é bom contrastá-la de vez em quando com a fé de um terceiro: o acompanhamento espiritual... o não ser acompanhado pode derivar num iluminismo muito perigoso.

Rezar não significa sair da história e retirar-se para o cantinho privado da própria felicidade. (Bento XVI, Spe salvi)

 in taller de oracion

«Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática.» Lc 8, 21

Nos ingredientes da vida

o Simãozinho com a sua bola cor-de-laranja e as bolachas de chocolate.

Há dias, modelava um boneco em açúcar, e dei por mim a pensar como os ingredientes que tinha entre mãos têm um paralelo com Deus e com a vida.

Para fazer um boneco de açúcar são precisas várias coisas:

Em primeiro lugar o açúcar. É o ingrediente principal dos meus bonecos, e é aquilo que em primeiro me tempera a vida, para que seja uma vida doce, com ternura, para que possa transmitir a quem está à minha volta algo de bom, de saboroso, aquilo que nos dá apetência pela vida...

Em segundo lugar: a água! fonte de vida, dela tudo nasce e com ela tudo cresce, junta e agrega matando a sede que o açúcar tem.

Depois um pouco de farinha: é aquilo que enche, dá volume, enriquece.

A seguir vem o espessante, o que dá consistência,o que permite aguentar, solidifica, permite que dure e enfrente os tempos futuros.

O corante: o que dá cor. É o que faz com que nada seja a branco e preto, nada seja bom ou mau na essência, antes permite que o açúcar ganhe a cor consoante o fim para que é criado: nem tudo é branco, nem tudo é preto, mas também não há por que ficar pelo cinzento, há toda uma variedade de cores, de situações e de acontecimentos que são diferentes consoante o seu destino.

A observação. Só posso modelar a partir do que observo, do que experimento. Assim também funciona com o amor de Deus por mim: se eu não O experimentar, não o posso transmitir aos outros.

Por fim, as minhas mãos, de criatura que se permite artificie, artesã, que mistura, modela, e pela observação do que está à volta, dá nova forma ao que passa agora a ser.

Assim nasce um boneco de açúcar.

Assim nasço eu, pelas mãos de Deus, todas as manhãs.

«O significado da parábola é este: a semente é a Palavra de Deus. Lc 8, 11

Deus tem Graça

Aos meus filhos, conto histórias de Deus.

“Histórias de Deus”, podem ser quaisquer histórias, às vezes até músicas, umas eles conhecem já, mas aprendem a ver nelas um outro lado... outras não conhecem, nunca ouviram contar. Como quaisquer crianças, os olhos consomem cada palavra com uma voracidade que me indica como as suas cabecinhas estão sequiosas do momento... e as que preferem?... ah! são sempre aquelas em que eles entram também.

Numa adaptação do conto “A varanda” do Nuno Tovar de Lemos, encenei há uns anos uma história para que a Pilar e os meninos da sua idade conhecessem um bocadinho mais de Deus. Aproximava-se a sua Primeira Comunhão e pedi a colaboração dos pais dos outros meninos para que lhes preparássemos uma surpresa: um teatro! Houve pais e mães que entraram, que deram o seu melhor por aquele momento, que ensaiaram, que memorizaram, que cabularam também, houve cenógrafa, houve actor, houve cantora, houve narradoras. Umas mães fizeram de anjo, outras de árvores, vestidos todos a rigor! Cada um marcou-me na sua dedicação, um dos pais fazia de velhote, pôs as cábulas num chapéu de palha que várias vezes tirava como quem fazia uma vénia, mas o que realmente acontecia era que precisava ver as cábulas para se lembrar das deixas.

Rimos todos a bandeiras despregadas...

Foi surpresa... nenhum dos nossos filhos sabia... não sabiam do teatro, mas sobretudo de pais e crianças o feedback foi de que não sabiam que Deus também podia ter Graça.

E assim Deus entrou por ali...

Assim começava:
“NARRADORAS
Hoje vou-vos contar uma história de Deus:
Certo dia, numa varanda à entrada do Céu, encontraram-se 5 pessoas que iam conhecer pessoalmente Deus: uma pintora, uma professora, um homem com uma pasta preta, um velhote e uma rapariga com uma viola.
Então, puseram-se a conversar sobre como seria Deus. Cada um com as suas ideias. Foi uma grande confusão! Quem será que tinha razão?
Numa coisa estavam todos de acordo: Deus é tão grande que é capaz de criar o universo e ao mesmo tempo é tão pequeno que cabe dentro de um grão de areia.
Deus consegue estar em todo lado ao mesmo tempo, e também está dentro dos nossos corações.
Ele é mesmo diferente de tudo o que conhecemos!”
....

"A piedade é, realmente, uma grande fonte de lucro para quem se contenta com o que tem."

Para a manhã…

Rosa acordada, que sonhaste?
Nas pálpebras molhadas vê-se ainda
Que choraste...
Foi algum pesadelo?
Algum pressário triste?
Ou disse-te algum deus que não existe
Eternidade?
Acordaste e és bela:
Vive!
O sol enxugará esse teu pranto
Passado.
Nega o presságio com perfume e encanto!
Faz o dia perfeito e acabado!

MIGUEL TORGA, in NIHIL SIBI (1948), in ANTOLOGIA POÉTICA (Coimbra, 4ª ed., 1994)

"Sê para mim uma rocha de refúgio,
uma fortaleza que me salve." (...)
"Tu és o meu Deus.
O meu destino está nas tuas mãos;
livra-me dos meus inimigos e perseguidores.”

do Sl.31